quarta-feira, 28 de abril de 2021

Assembleia Geral Ordinária - 3 de maio de 2021

Assembleia Geral Ordinária

Convocatória

            Ao abrigo do Artº 23º a), convoco todos os associados efetivos no pleno uso dos seus direitos sociais para a realização da Assembleia Geral Ordinária a qual terá lugar no próximo dia 03 de maio de 2021, segunda-feira, pelas 18 horas no Solar Condes de Resende, ou reunindo meia hora depois ao abrigo do Artº. 26º - 1, com a seguinte:

Ordem de Trabalhos

  1. Leitura e ratificação da ata da reunião anterior.
  2. Apreciação, discussão e votação do balanço e das conclusões do relatório anual da gerência e do parecer do Conselho Fiscal relativos ao ano de 2020.
  3. Discussão e aprovação da revisão dos Estatutos.
  4. Ao abrigo do Artº. 27 f dar baixa dos associados que não pagaram quotas desde 2017 e depois de notificados, 251, 266, 297, 308, 324, 312 e 313 e por ter pedido demissão, 289, 351 e 377.
  5. Outros assuntos julgados de interesse para a associação.
  6. Elaboração e aprovação da presente ata para fins tidos por necessários.

Vila Nova de Gaia, 31 de março de 2021

O Presidente da M.A.G.     

César Fernando Couto Oliveira

Obrigatória a observação das regras sanitárias em vigor


quarta-feira, 21 de abril de 2021

14ª e última sessão do Curso sobre o Antigo Egito


 

A ESCRITA HIEROGLÍFICA EGÍPCIA

A escrita hieroglífica é a mais conhecida entre os diversos tipos de escrita usados pelos antigos Egípcios ao longo de mais de três milénios. Ela é composta por  ideogramas (signos que transmitem ideias) e por fonogramas (signos que registam sons), os quais se completam e complementam de forma harmoniosa, e para a sua correta execução era necessário ter noções de apurada estética gráfica e possuir bons dotes de desenho e de caligrafia.

Usados desde a emergência do Egito unificado em finais do IV milénio, os signos que viriam a constituir a escrita hieroglífica, e que são facilmente diferenciáveis de qualquer outra escrita universal, foram um inesgotável manancial decorativo nas obras de arte, legendando e complementando as imagens e compondo uma rica iconografia, que hoje podemos admirar em paredes de templos e de túmulos, em estelas e em estátuas, e em muitos objetos decorativos e utilitários que se expõem em muitos museus do mundo – incluindo em Portugal.

O estilo de desenho das centenas de signos não foi sempre igual ao longo dos séculos, considerando-se os belos hieróglifos do Império Médio e os do Império Novo, nomeadamente os que foram usados durante a XVIII dinastia, como expoentes da elegância e do virtuosismo estético-gráfico, tendo sido depois a fonte de inspiração para os textos da XXVI dinastia, com o celebrado «renascimento saíta» dos séculos VII-VI a. C.

Mesmo quando, no decurso dos séculos, outras formas de escrita mais prática se foram impondo sobre vários suportes materiais (a escrita hierática e a demótica), os hieróglifos não perderam o seu estatuto de elementos de uma escrita sagrada, mantendo o seu claro monopólio de utilização em estelas de maior significado religioso ou político-ideológico e nas inscrições murais de templos e de túmulos, sendo em geral pintados em cores apropriadas.

A identificação de cada um dos signos hieroglíficos, desde que apresentados de forma não cursiva, torna-se relativamente fácil porque eles representam seres ou objetos concretos. O sistema começou por ter uma fase pictográfica, e os signos representavam seres humanos e as suas partes, animais, e ainda os astros, a vegetação, a geografia e os objetos do quotidiano que qualquer egípcio poderia «ler» sem dificuldade. Note-se que as figuras são apresentadas regra geral vistas de lado, outras vistas de cima (a mosca, o lagarto e o escaravelho, por exemplo) ou de frente – o que interessava era obter um fácil reconhecimento de cada hieróglifo.

Os signos podiam ser lidos da direita para a esquerda (que era a forma mais corrente), da esquerda para a direita e ainda de cima para baixo, sendo muito fácil perceber o sentido da leitura e, desta maneira, o início do texto: bastará seguir a posição dos signos que estão a olhar ou a apontar para o começo da respetiva frase.

Alguns hieróglifos têm apenas um som, tal como as nossas letras atuais (os unilíteros), ou têm dois sons (os bilíteros), ou três (os trilíteros). Além destes, que de facto se leem, há outros que se colocam no fim da palavra para esclarecer o seu sentido: são os determinativos (que podem ser fonéticos ou ideográficos).

Assim, e tendo em conta a aparente simplicidade do sistema, os signos ideográficos ou ideogramas representam, de imediato, aquilo que figuram, os signos fonéticos ou fonogramas dão apenas os sons (mais precisamente os sons das consoantes, as vogais não se escreviam), e os determinativos, colocados no final da palavra, não se leem mas facilitam a compreensão da ideia que se pretende transmitir. Agora é só começar a escrever...

Luís Manuel de Araújo

quarta-feira, 14 de abril de 2021

13ª sessão do Curso livre sobre o Antigo Egito

O ANTIGO EGIPTO NO CINEMA

13ª SESSÃO | 17 DE ABRIL DE 2021 | 15-17 HORAS

Resumo

José das Candeias Sales

(Universidade Aberta, CHUL)

 Não se pode ignorar, antes, pelo contrário, tem de se reconhecer, o enorme poder de sedução e de influência do cinema na formação de ideias e representações sobre o antigo Egipto e, sobretudo, o seu papel na globalização do conhecimento cultural sobre a civilização dos faraós, a sua cultura, as suas caraterísticas, as suas personagens e as suas divindades. Nesta sessão, passaremos em revista uma série de filmes que, desde as décadas de 50 e de 60 do século XX até à actualidade, foram moldando a percepção de milhões de espectadores sobre a Egipto antigo.


quarta-feira, 7 de abril de 2021

12ª sessão do curso sobre o Antigo Egito

 


A LITERATURA DO ANTIGO EGIPTO

A literatura do antigo Egipto pode ser interpretada de inúmeras maneiras, havendo muitas possibilidades de abordagem, da religiosa à mágica, passando por outras como a astronómica, a política ou a simbólica. Mas tal como a arte estava intrinsecamente ligada ao poder político e à religião, também a literatura cumpria o seu papel na sociedade, podendo-se afirmar que o seu primeiro objectivo era a formação. A ideia de uma literatura «para distrair», «para quebrar o tédio» não existia, a não ser como forma literária para lançar ideias com grande impacto na sociedade egípcia. Além desta componente pedagógica, tinham ainda uma componente didáctica, sendo também utilizados na formação de escribas, não só do ponto de vista caligráfico, gramatical e vocabular, mas também na sua formação pessoal através da abordagem dos temas. Mesmo ficcionados, eram normalmente construídos sobre uma base facilmente reconhecível no tecido natural ou social, que lhes dava credibilidade e sustentabilidade.

Quando se fala de literatura do antigo Egipto, desde logo afasta-se o conceito de uma literatura em sentido lato ou abrangente, que abarque toda a produção escrita conhecida como património literário do antigo Egipto. Pelo contrário, pretende-se tão-somente abarcar uma produção de carácter mais restrito que, independentemente do conteúdo e por força da sua qualidade estética, foi considerada trabalho de primeiro plano pela própria «crítica» egípcia da época. Através dela, os escribas legaram-nos valores e conhecimentos, pensamentos e crenças tão importantes, ou mais ainda, do que tudo aquilo que os seus empreendimentos de carácter mais visível nos podem transmitir. E isto, sem escamotear a certeza de só nos ter chegado uma pequena parte da produção literária egípcia! Vestígios fragmentados pelo tempo ou pela barbárie dos homens, cuja reconstituição de boa parte dos casos só tem sido possível através da utilização de várias cópias do mesmo texto, por vezes agravada por pertencerem a épocas diferentes. Outras vezes nem isso, conhecendo-se apenas um único e deteriorado exemplar.

Apesar de variada, a literatura egípcia que chegou até nós é, normalmente, organizada em cinco géneros: instruções, literatura das ideias, lírica, textos ideológicos e contos. Explicaremos cada um destes géneros e associar-lhes-emos textos que os integrem. Além disso daremos destaque a alguns desses textos, que podem ser a História de Sinuhe, o Conto do Náufrago, o Conto do Camponês Eloquente, a Instrução de Kheti, os Hinos ao rei Senuseret III, o Conto dos Dois Irmãos, O Príncipe Predestinado, A Tomada de Ipu, alguns poemas de amor, ou outros casos.

É da análise destes textos, em particular dos contos, que nascem as razões que tornaram deveras apreciadas as palavras de Gustave Lefebvre, muito interpelantes para os que se debruçam sobre esta temática: «Os contos oferecem-nos portanto a sociedade, a sua hierarquia, as suas diversas classes, como também as suas ideias morais e crenças religiosas, um quadro fiel, pleno de vida, com ricas cores, de detalhes cuidadosamente escritos, que nos permitem penetrar mais profundamente na alma egípcia. A este título eles interessam não somente à história da literatura, mas mais ainda talvez à da civilização». Acrescentemos que não são só os contos, mas os textos literários em geral, nos oferecem tudo isto: conhecer a literatura egípcia é a forma privilegiada de alcançar o modo de pensar e sentir da civilização egípcia, enfim, de estudar a «alma egípcia».

Um texto do Império Novo (Papiro Chester Beatty IV ou BM ESA 10684), datado da transição da XIX dinastia (c. 1307-1196 a. C.) para a XX (c. 1196-1070 a. C.), foi feito para exaltar a tarefa dos que escrevem e para sublinhar o valor intemporal do acto de escrever, que os letrados egípcios tanto cultivaram. A verdade é que, dizia já o escriba egípcio de há três mil e oitocentos anos, muitos túmulos de pedra desmoronaram-se e caíram no esquecimento, e com eles o nome dos seus proprietários, no entanto, os nomes dos escritores serão sempre recordados. Neste texto, o que mais impressiona, é a nomeação de oito autores «clássicos», os melhores, que viveram e produziram os seus trabalhos no Império Antigo e no Império Médio.

A IMORTALIDADE DOS ESCRITORES (3 últimas estrofes)

Um homem morre, o seu corpo está (estendido) no chão

e toda a sua família foi entregue à terra,

mas o que ele escreveu faz com que seja recordado

pela boca de quem disser a palavra.

Um rolo de papiro é mais útil do que uma casa construída

ou uma capela funerária no Ocidente.

Melhor do que esplêndidas casas de campo

ou uma estela comemorativa doada a um templo.

Há agora alguém como Hordedef?

Há outro como Imhotep?

Não nasceu ninguém na nossa geração como Neferti

e Kheti, o primeiro deles (todos).

Deixa-me lembrar-te os nomes de Ptahemdjehuti

e Khakheperréseneb.

Há outro como Ptahhotep

ou igual a Kaires?

Aqueles que sabem prever o futuro,

o que sai da sua boca vindo à existência

pode ser encontrado nas (suas) palavras.

Eles deram filhos a outros

como herdeiros dos seus (próprios) filhos.

Eles ocultaram a sua magia da terra inteira

para ser lida nas (suas) instruções.

Eles partiram, os seus nomes podem ter sido esquecidos,

Mas o que escreveram faz com que sejam recordados.

Doutor Telo Ferreira Canhão.

terça-feira, 23 de março de 2021

11ª sessão do curso sobre o Antigo Egito

 

O «LIVRO DOS MORTOS» DO ANTIGO EGITO

A designação de «Livro dos Mortos» é uma tradução moderna da expressiva locução egípcia Rau nu peret em heru (rw nw prt m hrw), que, à letra, vem a dar «Capítulos de sair para o dia», ou «Fórmulas para sair para o dia», «Fórmulas para sair de dia», ou ainda, numa forma porventura mais completa e mais expressiva, e que aparece amiúde em português, «Fórmulas para sair à luz do dia», a qual, não seguindo literalmente a locução egípcia que serve de título à compilação, enfatiza bem a luminosidade diurna que o defunto almeja e quer alcançar. No outro mundo paradisíaco, o defunto ressuscitado deseja brilhar como o deus Ré e fruir a eternidade como o deus Osíris,

As várias designações partem do título inicial, e hoje universalmente divulgado, que surgiu em meados do século XIX pela mão do egiptólogo alemão Richard Lepsius, que deu à compilação de fórmulas mágicas que estudou o nome de Todtenbuch. O notável pioneiro da egiptologia alemã não teve uma tarefa fácil, porque esse «livro» é composto por cerca de duzentos capítulos, muitos deles recheados de ambiguidade e grande complexidade, com a agravante de certos capítulos não terem a mesma redação, variando consoante os exemplares que foram produzidos em diferentes períodos históricos. Esses exemplares estão redigidos em escrita hieroglífica cursiva, em geral com um fino e elegante traço, ou então em escrita hierática, e ainda, embora seja mais raro, em escrita demótica, já na fase final da civilização egípcia (alguns exemplares são mesmo do período romano). Muitos dos capítulos estão decorados com gravuras, desenhadas a traço ou pintadas, por vezes com um belo cromatismo e grande minudência nos detalhes, conhecidas habitualmente por vinhetas.

 Desde que apareceram na Europa os primeiros exemplares em papiro, julgou-se que, de uma forma bastante aligeirada, o «Livro dos Mortos» seria uma espécie de Bíblia para uso dos piedosos Egípcios. E embora os especialistas desde cedo tivessem percebido que esse diversificado ritual de preparação para a outra vida, cujos capítulos figuravam habitualmente redigidos em papiros, em estatuetas funerárias, ou em sarcófagos de madeira ou de cartonagem, não era de modo algum uma Bíblia egípcia, essa ideia desvirtuada persistiu no imaginário do público. Mas a verdade é que não se podem fazer tais comparações ínvias, dado que o «livro», onde ao longo de vários séculos (entre o Império Novo e a Época Greco-romana) se reuniram os mais díspares textos e gravuras, não é de facto uma Bíblia, nem tem nada a ver com o Corão.  Além disso, não se trata de facto de um livro (no sentido habitual deste termo) e nem foi feito apenas para mortos – os textos dos rolos de papiro, que também eram pintados nas paredes dos túmulos, seriam «lidos» como autênticos «textos de apoio», destinados a ajudar o defunto na sua incerta e difícil viagem rumo ao Ocidente e à Duat (o outro mundo, o paraíso, o Além, entre outras alusões), onde muitos capítulos ou fórmulas do «Livro dos Mortos» iam demonstrar, supostamente, a desejada eficácia que deles se esperava. É que alguns deles até estavam complementados por expressivas ilustrações com imagens das divindades ou de estranhos e por vezes aberrantes seres do Além invocados nos textos escolhidos para o «livro», os quais eram guardiões das portas de acesso à Duat. 

Os defuntos, quando ainda estavam vivos e eram potenciais clientes para adquirir os papiros ou encomendar o seu túmulo, tinham à sua disposição apropriados passos do «Livro dos Mortos» selecionados de «catálogos», para depois serem pintados nas paredes do túmulo ou no sarcófago, e ainda versões reduzidas ou mais dilatadas nos espaços disponíveis dos chauabtis e dos uchebtis (as designações das estatuetas funerárias), onde se gravava o capítulo 6 para a corveia eterna, ou então profiláticos escaravelhos, feitos geralmente de pedra, na base dos quais se inscrevia o capítulo 30, para que o coração do defunto não testemunhasse contra ele no julgamento final. 

Os exemplares do «Livro dos Mortos» eram geralmente colocados dentro do sarcófago, mas também podiam ser enrolados e guardados dentro de uma caixa provida de uma tampa feita na base de uma estatueta de madeira pintada de Sokar-Osíris, ou, num mais alargado sincretismo, de Ptah-Sokar-Osíris. São conhecidos diversos casos de papiros encontrados na própria múmia, junto dos braços, entre as pernas, sobre o coração (onde muitas vezes se depositava um escaravelho com uma das duas versões do capítulo 30), ou mesmo incorporados nas faixas da múmia. 

O propósito da coletânea, recheada com tantas fórmulas de cariz mágico e profilático, nunca foi estabelecer as bases da religião egípcia, nem sequer guiar os crentes para uma vida específica religiosa, mas sim para auxiliar os seus donos no outro mundo, na Duat, eles que aliás tinham bem pago o seu exemplar pessoal ainda nesta vida. Mas ainda durante a sua passagem efémera por este mundo o aspirante à eternidade (por ter durante a sua vida praticado a maet, sendo justo, afetuoso, solida´rio e correto) podia tomar conhecimento de certos passos essenciais da compilação funerária, pois alguns capítulos seriam lidos com ele ainda em condições físicas e mentais apropriadas para a fruição mágica de tais textos, produzidos por letrados ligados aos templos sem qualquer intervenção profética de um mensageiro divino. Na verdade, a religião egípcia não assentava sobre revelações: as suas doutrinas não eram atribuídas a nenhum profeta ou a qualquer intermediário com inspiração divina, que possa ser comparado a Cristo, a Maomé ou a Buda, figuras conhecidas da religiosidade universal que proporcionaram a discípulos e crentes livros alicerçadores da respetiva fé. Por outro lado, o «Livro dos Mortos» preocupa-se, basicamente, com a vida no Além, e não pode ser visto e apreciado como um texto fundamental, dogmático e canónico, mas sim como parte de uma vasta e complexa literatura religiosa, da qual, de resto, nem é o melhor exemplo.

Está agora em curso a preparação de uma versão do «Livro dos Mortos» em português, para superar uma edição imprópria e pejada de erros que existe por aí, e para evitar a «consulta» de uma versão jagúncica brasileira da editora Humus, que enxovalham o texto original egípcio e chegam a ser insultuosas para com os leitores que inadvertidamente leem tais traduções acintosas. 

Luís Manuel de Araújo


quarta-feira, 3 de março de 2021

10ª sessão do curso sobre o Antigo Egito


«Erotismo e sexualidade no antigo Egito»


A cultura material e literária egípcias proporcionam um extenso manancial para o estudo do erotismo no vale do Nilo. A literatura egípcia, em particular a poesia amorosa, proporciona uma perspectiva única sobre a emergência das primeiras representações literárias sobre o amor.

Nesta sessão iremos debruçar-nos sobre a fenomenologia amorosa descrita nos poemas de amor de forma a traçar sumariamente o quadro original de referências semânticas que lhes estavam subjacentes. onde uma certa experiência do sagrado não estava excluída. Abordaremos também os abundantes vestígios de temática porno-concupiscente patentes na cultura material egípcia e que atestam o grau de sofisticação atingindo pela civilização do Nilo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

9ª sessão do curso sobre o Antigo Egito


A VIAGEM DE EÇA DE QUEIRÓS E DO CONDE DE RESENDE AO EGITO

Em outubro de 1869, Eça de Queirós, então com 23 anos, acompanhando o seu amigo conde de Resende, na altura com 25 anos, partiram de barco para o Egito a fim de assistirem à inauguração do canal de Suez. Os dois jovens saíram de Lisboa e desembarcaram em Alexandria a 5 de novembro, seguindo de comboio para a cidade do Cairo, a capital do EgitoEm Alexandria recebeu Eça a primeira grande desilusão do seu percurso oriental: não gostou da cidade, e reconheceu que apenas se sentiu atraído por algumas «curiosidades clássicas»: a «coluna de Pompeu» e as ditas «agulhas de Cleópatra» (a primeira é uma coluna erguida no reinado do imperador Diocleciano, e as segundas são obeliscos erguidos por Tutmés III à entrada do templo de Heliópolis e levados depois para Alexandria durante o reinado de Augusto).

Descrevendo a sua viagem de comboio através do Delta, entre Alexandria e o Cairo, pela via férrea montada pelos ingleses, Eça alude com bastante afeto aos habitantes do Egito, com referências ao felá, o camponês do Nilo, fazendo argutas comparações entre os Egípcios da sua época e os dos tempos faraónicos, e vai tecendo irónicas observações acerca da situação da mulher no Egito e no mundo do Próximo Oriente e seus costumes, não deixando adrede de criticar com veemente adjetivação a administração corrupta daquele tempo, comparando-a com a eficácia do regime faraónico, louvando o rei Amenemhat III.

Nos arredores do Cairo Eça e o conde de Resende visitaram Heliópolis, onde ainda hoje está o obelisco de Senuseret I, da XII dinastia, as ruínas da cidade de Mênfis, e a região tumular de Sakara, com o complexo funerário do Hórus Djoser, da III dinastia (que Eça não menciona), o Serapeum (os túmulos dos bois Ápis, animais sagrados do deus Ptah) e o túmulo do funcionário Ti, da V dinastia, para além das célebres pirâmides de Guiza. O momento alto da sua incursão pelo passado faraónico foi a visita ao planalto de Guiza, para admirar as gigantescas pirâmides que se erguem no local, e às quais dedicou nas suas notas de viagem sugestivas descrições.

Também merece destaque a experiência fruída na visita que fizeram ao antigo Museu do Cairo, para apreciar as «vetustas antiguidades egípcias, velhas de milhares de anos». Nesse edifício, sito na zona de Bulak e hoje desaparecido, o egiptólogo francês Auguste Mariette (que Eça conheceu numa sessão da Ópera do Cairo) instalou um acervo de antiguidades egípcias, inaugurado em 1863, e que o nosso escritor conheceria seis anos depois, deixando-nos dessa visita uma interessante descrição.

Para Eça, o Cairo era «o centro do Egito e a sua maravilha». Impressionou-o o cosmopolitismo da metrópole cairota (na altura com 300 000 habitantes), tendo visitado os reduzidos vestígios coptas e os mais notáveis monumentos islâmicos na Cidadela e nas zonas em redor, como os túmulos dos califas (hoje numa zona cairota conhecida como «cidade dos mortos»), a vetusta mesquita de Amr, a mesquita de Ibn Tulun e a Universidade de Al-Azhar, junto do bazar de Khan el-Khalili.

A inesquecível estada dos dois amigos no Egito durou menos de dois meses, mas o sentimento de afeto e nostalgia que ficou enraizado em Eça depois da sua jornada nilótica está bem ilustrado nas palavras que deixou numa das páginas dos cadernos de viagem: «Por vezes sinto o desejo de ficar aqui, ter um búfalo, uma mulher egípcia, descendente dos velhos donos do solo, e lavrar o meu campo no meio da serena paisagem do Nilo»