A LITERATURA DO ANTIGO EGIPTO
Objectivos
ARTº 3º
Os objetivos da Associação consistem na difusão e consolidação do renome mundial de Eça de Queirós, da sua vida, da sua obra e da sua época, promovendo a cultura portuguesa em território nacional e estrangeiro, nomeadamente na Europa, e ainda nos países lusófonos e restantes países do mundo.
A LITERATURA DO ANTIGO EGIPTO
O «LIVRO DOS MORTOS» DO ANTIGO EGITO
A designação de «Livro dos Mortos» é uma tradução moderna da expressiva locução egípcia Rau nu peret em heru (rw nw prt m hrw), que, à letra, vem a dar «Capítulos de sair para o dia», ou «Fórmulas para sair para o dia», «Fórmulas para sair de dia», ou ainda, numa forma porventura mais completa e mais expressiva, e que aparece amiúde em português, «Fórmulas para sair à luz do dia», a qual, não seguindo literalmente a locução egípcia que serve de título à compilação, enfatiza bem a luminosidade diurna que o defunto almeja e quer alcançar. No outro mundo paradisíaco, o defunto ressuscitado deseja brilhar como o deus Ré e fruir a eternidade como o deus Osíris,
As várias designações partem do título inicial, e hoje universalmente divulgado, que surgiu em meados do século XIX pela mão do egiptólogo alemão Richard Lepsius, que deu à compilação de fórmulas mágicas que estudou o nome de Todtenbuch. O notável pioneiro da egiptologia alemã não teve uma tarefa fácil, porque esse «livro» é composto por cerca de duzentos capítulos, muitos deles recheados de ambiguidade e grande complexidade, com a agravante de certos capítulos não terem a mesma redação, variando consoante os exemplares que foram produzidos em diferentes períodos históricos. Esses exemplares estão redigidos em escrita hieroglífica cursiva, em geral com um fino e elegante traço, ou então em escrita hierática, e ainda, embora seja mais raro, em escrita demótica, já na fase final da civilização egípcia (alguns exemplares são mesmo do período romano). Muitos dos capítulos estão decorados com gravuras, desenhadas a traço ou pintadas, por vezes com um belo cromatismo e grande minudência nos detalhes, conhecidas habitualmente por vinhetas.
Desde que apareceram na Europa os primeiros exemplares em papiro, julgou-se que, de uma forma bastante aligeirada, o «Livro dos Mortos» seria uma espécie de Bíblia para uso dos piedosos Egípcios. E embora os especialistas desde cedo tivessem percebido que esse diversificado ritual de preparação para a outra vida, cujos capítulos figuravam habitualmente redigidos em papiros, em estatuetas funerárias, ou em sarcófagos de madeira ou de cartonagem, não era de modo algum uma Bíblia egípcia, essa ideia desvirtuada persistiu no imaginário do público. Mas a verdade é que não se podem fazer tais comparações ínvias, dado que o «livro», onde ao longo de vários séculos (entre o Império Novo e a Época Greco-romana) se reuniram os mais díspares textos e gravuras, não é de facto uma Bíblia, nem tem nada a ver com o Corão. Além disso, não se trata de facto de um livro (no sentido habitual deste termo) e nem foi feito apenas para mortos – os textos dos rolos de papiro, que também eram pintados nas paredes dos túmulos, seriam «lidos» como autênticos «textos de apoio», destinados a ajudar o defunto na sua incerta e difícil viagem rumo ao Ocidente e à Duat (o outro mundo, o paraíso, o Além, entre outras alusões), onde muitos capítulos ou fórmulas do «Livro dos Mortos» iam demonstrar, supostamente, a desejada eficácia que deles se esperava. É que alguns deles até estavam complementados por expressivas ilustrações com imagens das divindades ou de estranhos e por vezes aberrantes seres do Além invocados nos textos escolhidos para o «livro», os quais eram guardiões das portas de acesso à Duat.
Os defuntos, quando ainda estavam vivos e eram potenciais clientes para adquirir os papiros ou encomendar o seu túmulo, tinham à sua disposição apropriados passos do «Livro dos Mortos» selecionados de «catálogos», para depois serem pintados nas paredes do túmulo ou no sarcófago, e ainda versões reduzidas ou mais dilatadas nos espaços disponíveis dos chauabtis e dos uchebtis (as designações das estatuetas funerárias), onde se gravava o capítulo 6 para a corveia eterna, ou então profiláticos escaravelhos, feitos geralmente de pedra, na base dos quais se inscrevia o capítulo 30, para que o coração do defunto não testemunhasse contra ele no julgamento final.
Os exemplares do «Livro dos Mortos» eram geralmente colocados dentro do sarcófago, mas também podiam ser enrolados e guardados dentro de uma caixa provida de uma tampa feita na base de uma estatueta de madeira pintada de Sokar-Osíris, ou, num mais alargado sincretismo, de Ptah-Sokar-Osíris. São conhecidos diversos casos de papiros encontrados na própria múmia, junto dos braços, entre as pernas, sobre o coração (onde muitas vezes se depositava um escaravelho com uma das duas versões do capítulo 30), ou mesmo incorporados nas faixas da múmia.
O propósito da coletânea, recheada com tantas fórmulas de cariz mágico e profilático, nunca foi estabelecer as bases da religião egípcia, nem sequer guiar os crentes para uma vida específica religiosa, mas sim para auxiliar os seus donos no outro mundo, na Duat, eles que aliás tinham bem pago o seu exemplar pessoal ainda nesta vida. Mas ainda durante a sua passagem efémera por este mundo o aspirante à eternidade (por ter durante a sua vida praticado a maet, sendo justo, afetuoso, solida´rio e correto) podia tomar conhecimento de certos passos essenciais da compilação funerária, pois alguns capítulos seriam lidos com ele ainda em condições físicas e mentais apropriadas para a fruição mágica de tais textos, produzidos por letrados ligados aos templos sem qualquer intervenção profética de um mensageiro divino. Na verdade, a religião egípcia não assentava sobre revelações: as suas doutrinas não eram atribuídas a nenhum profeta ou a qualquer intermediário com inspiração divina, que possa ser comparado a Cristo, a Maomé ou a Buda, figuras conhecidas da religiosidade universal que proporcionaram a discípulos e crentes livros alicerçadores da respetiva fé. Por outro lado, o «Livro dos Mortos» preocupa-se, basicamente, com a vida no Além, e não pode ser visto e apreciado como um texto fundamental, dogmático e canónico, mas sim como parte de uma vasta e complexa literatura religiosa, da qual, de resto, nem é o melhor exemplo.
Está agora em curso a preparação de uma versão do «Livro dos Mortos» em português, para superar uma edição imprópria e pejada de erros que existe por aí, e para evitar a «consulta» de uma versão jagúncica brasileira da editora Humus, que enxovalham o texto original egípcio e chegam a ser insultuosas para com os leitores que inadvertidamente leem tais traduções acintosas.
Luís Manuel de Araújo
«Erotismo e sexualidade no antigo Egito»
A cultura material e literária egípcias proporcionam um extenso manancial para o estudo do erotismo no vale do Nilo. A literatura egípcia, em particular a poesia amorosa, proporciona uma perspectiva única sobre a emergência das primeiras representações literárias sobre o amor.
Nesta sessão iremos debruçar-nos sobre a fenomenologia amorosa descrita nos poemas de amor de forma a traçar sumariamente o quadro original de referências semânticas que lhes estavam subjacentes. onde uma certa experiência do sagrado não estava excluída. Abordaremos também os abundantes vestígios de temática porno-concupiscente patentes na cultura material egípcia e que atestam o grau de sofisticação atingindo pela civilização do Nilo.
Em outubro de 1869, Eça de Queirós,
então com 23 anos, acompanhando o seu amigo conde de Resende, na altura com 25
anos, partiram de barco para o Egito a fim de assistirem à inauguração do canal
de Suez. Os dois jovens saíram de Lisboa e desembarcaram em Alexandria a 5 de
novembro, seguindo de comboio para a cidade do Cairo, a capital do Egito. Em Alexandria recebeu Eça a primeira
grande desilusão do seu percurso oriental: não gostou da cidade, e
reconheceu que apenas se sentiu atraído por algumas «curiosidades clássicas»: a
«coluna de Pompeu» e as ditas «agulhas de Cleópatra» (a primeira é uma coluna
erguida no reinado do imperador Diocleciano, e as segundas são obeliscos
erguidos por Tutmés III à entrada do templo de Heliópolis e levados depois para
Alexandria durante o reinado de Augusto).
Descrevendo a sua viagem de comboio
através do Delta, entre Alexandria e o Cairo, pela via férrea montada pelos
ingleses, Eça alude com bastante afeto aos habitantes do Egito, com referências
ao felá, o camponês do Nilo, fazendo argutas comparações entre os Egípcios da
sua época e os dos tempos faraónicos, e vai tecendo irónicas
observações acerca da situação da mulher no Egito e no mundo do Próximo Oriente
e seus costumes, não deixando adrede de criticar com veemente adjetivação
a administração corrupta daquele tempo, comparando-a com a eficácia do regime
faraónico, louvando o rei Amenemhat III.
Nos arredores do Cairo Eça e o
conde de Resende visitaram Heliópolis, onde ainda hoje está o obelisco de
Senuseret I, da XII dinastia, as ruínas da cidade de Mênfis, e a região tumular
de Sakara, com o complexo funerário do Hórus Djoser, da III dinastia (que Eça
não menciona), o Serapeum (os túmulos dos bois Ápis, animais sagrados do deus
Ptah) e o túmulo do funcionário Ti, da V dinastia, para além das célebres
pirâmides de Guiza. O momento alto
da sua incursão pelo passado faraónico foi a visita ao planalto de Guiza, para
admirar as gigantescas pirâmides que se erguem no local, e às quais dedicou nas
suas notas de viagem sugestivas descrições.
Também merece destaque a
experiência fruída na visita que fizeram ao antigo Museu do Cairo, para
apreciar as «vetustas antiguidades egípcias, velhas de milhares de anos». Nesse
edifício, sito na zona de Bulak e hoje desaparecido, o egiptólogo francês
Auguste Mariette (que Eça conheceu numa sessão da Ópera do Cairo) instalou um
acervo de antiguidades egípcias, inaugurado em 1863, e que o nosso escritor
conheceria seis anos depois, deixando-nos dessa visita uma interessante
descrição.
Para Eça, o Cairo era «o centro do
Egito e a sua maravilha». Impressionou-o o cosmopolitismo da metrópole cairota
(na altura com 300 000 habitantes), tendo visitado os reduzidos vestígios
coptas e os mais notáveis monumentos islâmicos na Cidadela e nas zonas em redor,
como os túmulos dos califas (hoje numa zona cairota conhecida como «cidade dos
mortos»), a vetusta mesquita de Amr, a mesquita de Ibn Tulun e a Universidade
de Al-Azhar, junto do bazar de Khan el-Khalili.
A inesquecível estada dos dois
amigos no Egito durou menos de dois meses, mas o sentimento de afeto e
nostalgia que ficou enraizado em Eça depois da sua jornada nilótica está bem
ilustrado nas palavras que deixou numa das páginas dos cadernos de viagem: «Por
vezes sinto o desejo de ficar aqui, ter um búfalo, uma mulher egípcia,
descendente dos velhos donos do solo, e lavrar o meu campo no meio da serena
paisagem do Nilo».
«As ciências no Antigo
Egipto»
Doutor
Telo Ferreira Canhão
É um dado adquirido que a Grécia antiga foi
fundamental para a construção da civilização e da consciência do mundo
ocidental. Foi na Grécia clássica que o pensamento racional se impôs e que a
filosofia nasceu como alternativa às crenças mítico-religiosas ancestrais.
Uniformizaram-se sistemas de
conhecimento, submetendo as causas primeiras de cada um aos vários pressupostos
e métodos gerais da ciência, assentes em dois conceitos fundamentais: o
antropocentrismo e o racionalismo. É esta a sua originalidade: o homem como
centro de interesse e de especulação, e a prioridade da
razão sobre o mito. Segundo Protágoras, o homem, «medida de todas as coisas», é
simultaneamente herói e destinatário
dessa aventura. Mesmo assim, ainda estávamos longe do pensamento de Descartes, posteriormente desenvolvido na prática por Newton!
Contudo,
os sábios da Grécia antiga iam ao antigo Egipto para aprender, pois sabiam que aí existia uma ciência venerável e um elevado nível de conhecimento, ainda que
misturados com práticas mágicas
e religião. Como diz Plutarco em Ísis e Osíris, «os gregos mais ilustres:
Sólon, Tales, Platão, Eudóxio, Pitágoras e, segundo alguns alunos, também Licurgo,
foram viver para o Egipto e chegaram a gozar de intimidade com os sacerdotes.
Por isso se diz que Eudóxio ouviu as lições de Conúfis o de Mênfis; que Sólon
deu ouvidos às do saíta Sonchis; e que Pitágoras conversava com o heliopolitano
Enúfis.» (Plutarco, Ísis e Osíris,
10). Ficou ainda registado, por exemplo, que Platão foi
discípulo de Secnúfis, de Heliópolis, e Pitágoras enunciou o seu famoso teorema
quando saiu do Egipto, cerca de 520 a. C., depois de lá ter vivido alguns anos.
Ora, como o povo egípcio
era pragmático por excelência, toda a sua ciência era empírica, fortemente
utilitária voltada para a solução dos problemas do dia-a-dia. Por exemplo, a
matemática e a geometria desenvolveram-se enquanto procuravam soluções para a
medição de terras, o traçado das pirâmides ou dos templos, ou nos registos e
cálculos associados ao comércio; a medicina e a farmacopeia com a necessidade
de aliviar o sofrimento de quem necessitava; a astronomia por causa da
premência de uma medição correcta do tempo, tão necessária à agricultura. Mas o
seu conhecimento não passava de conjuntos de regras que permitiam a resolução
de certas questões que, embora assentassem na observação, jamais se desligaram
da religião e da magia, nunca tendo sido organizados em leis gerais.
É por isso que saberes como a geometria e a
astronomia só se constituíram ciências com os Gregos, apesar de sabermos que os Egípcios e os Mesopotâmios lhes
dedicaram imensa atenção. Faltava-lhes o logos (λòγος), o conhecimento racional desenvolvido a partir da observação e
da experimentação, que faria com que deixassem de ser apenas colecções de
regras e passassem a ser conjuntos de conhecimentos sistematizados,
relacionados e explicados de forma racional, de modo a que o conhecimento das
causas e efeitos permitisse a enunciação de leis gerais. Por esta razão, as leis egípcias, ainda que escritas e devidamente arquivadas, não
constituíram códigos de leis como os romanos mais tarde viriam a concretizar. Os conhecimentos científicos
concentravam-se nas mãos de poucos, principalmente de alguns sacerdotes e
escribas, cujos papiros eram uma espécie de cadernos de apontamentos onde
registavam as suas impressões, os seus raciocínios e as suas soluções, sobre o
conhecimento da sua área. Temos papiros médicos (Papiro Ebers, Papiro Smith ou Papiro Brooklyn, por exemplo), papiros matemáticos (Papiro Rhind e Papiro de Moscovo, por exemplo) e longas listas de leituras astrais.
Há muitos exemplos que
poderíamos integrar em diversas ciências, como a química (produção de cerveja,
de vinho ou de substâncias tintureiras, de origem animal ou vegetal, por
exemplo), da qual tinham um conhecimento residual nada ligado à prática desta
ciência exacta, mas que segundo a opinião de alguns, foi uma ciência a que
deram o nome; ou a física, onde sendo os construtores que eram, pouco mais
sabemos do seu conhecimento nesta área para além de que conheciam o plano
inclinado; ou, ainda, a biologia, onde a descrição minudente de múltiplos
aspectos dos animais que observavam à sua volta, são insuficientes para se
poder considerar a existência desta ciência natural no antigo Egipto. Contudo,
na sessão em que abordaremos as ciências do antigo Egipto, iremos focar-nos na
astronomia, na matemática e na medicina, aquelas que mais se aproximaram, de
facto, de uma ciência. No primeiro caso falaremos do tempo e incluiremos os
calendários e os relógios, para além de estrelas, planetas e constelações; na
matemática, onde não descuidaremos a geometria, falaremos da numeração egípcia,
das operações aritméticas como a soma, a subtracção e a divisão, de fracções, de
equações, de áreas, de volumes e do valor de π (razão entre a
circunferência de um círculo e seu diâmetro); por fim, na medicina e
na farmacopeia, falaremos dos vários tipos de profissionais da área, dos seus
conhecimentos médicos e do que faziam e usavam para curar os doentes. Alguns
destes conhecimentos sobreviveram até aos nossos dias.
«A arte funerária do Antigo Egito»
Esta
sessão propõe-se abordar um dos temas mais desafiantes da civilização do Antigo
Egipto: a cultura material associada ao horizonte funerário. Durante mais de
três mil anos, os Egípcios equiparam os seus túmulos com um abundante espólio
funerário cuja composição variou bastante ao longo do tempo. Examinaremos a
relação íntima entre a concepção do túmulo e do espólio funerário e o modo como
as alterações registadas num afectaram o outro e vice-versa. Um dos objectos
mais ilustrativos da cultura material funerária egípcia é o ataúde
antropomórfico. pelo que iremos dar urna especial atenção ao seu simbolismo e
significado, assim como a todos os artefactos que eram incluídos na
mumificação.
Curso livre sobre o Antigo Egito
A
ARQUITETURA DO ANTIGO EGIPTO
6ª sessão | 9 DE JANEIRO DE 2021 | 15-17 Horas
RESUMO
José
das Candeias Sales
(Universidade Aberta, CHUL)
Quando
falamos de arquitetura do antigo Egito estamos a falar de diferentes tipos de
edifícios e de construções, desde a arquitetura civil à militar, passando pela
religiosa. Esta distinção fundamental deriva das próprias conceções mentais que
os antigos egípcios perfilhavam e interfere, logicamente, nas estruturas,
materiais de construção e funções que se associaram aos diversos tipos de
monumentos.
Devido
à sua importância no âmbito da cultura egípcia e ao considerável número de
testemunhos que chegaram até aos nossos dias, nesta sessão iremos concentrar a
nossa atenção particularmente na arquitetura religiosa, estabelecendo
diferenças e semelhanças entre os templos divinos (a «morada» da divindade) e
os templos funerários (local onde se faziam oferendas ao morto), visitando,
ainda que virtualmente, muitos destes monumentos através de um power point
alusivo.